É raro, mas vez ou outra sinto a vida como uma grande queda-livre. O chão tira o corpo fora, não há caules ou raízes em que se possa segurar. Tudo não é mais que um tapa na cara. Só nessas horas é que conheço a solidão, a solidão da queda-livre. Das pessoas restaram as vozes zombeteiras, me acusam, riem-se. Não levo magoa, o que mais eu queria? O que mais eu poderia chamar de liberdade? Nada mais me prende e por isso caio. Liberdade talvez seja um nome de guerra da queda. Minha alma chega a tocar o céu da boca, sinto náusea de mim mesmo. E tudo é insuportavelmente banal como a gota d'água do chuveiro, cai e explode no ralo como um sem número de outras. Não resta nem a vanglória da excepcionalidade, sou só o fruto necessário da gravidade das coisas. Pensei que seria poeta, pensei que seria um abutre negro pastando almas daninhas, mas sou só queda. Restou-me o grito destas linhas, de horror e medo ao ver-me no espelho, ao ver a queda, ao respirar o nada, ao não saber o que mais devo fazer com os pés. Só restou as palavras. Mas hoje em dia elas não valem nada.
M.U.C.C.
blog dedicado à publicação despretensiosa e despreocupada de pequenos textos, comentários e pitacos em geral.
sábado, 5 de novembro de 2011
sábado, 29 de outubro de 2011
Distância e Proximidade
Um genocídio de formigas não fará manchetes de jornal. Nem levará gerações de historiadores a refletir sobre suas origens e consequências. Assim também a beleza de um ser não se pode conhecer verdadeiramente antes de se aproximar dele a mais ou menos um palmo. Sentimos numa relação de aproximação e afastamento. Gostar, amar, apiedar-se é chegar mais perto.
Não há situação mais clara para representar isso do que cruzar a calçada para não encontrar alguém ou para provocar o encontro. Quando era aluno, me habituava a ver meus professores à uma certa distância. Normalmente eu sentava no fundo, não por comportamento, mas por tamanho mesmo, e de lá eles tinham uma determinada proporção e suas expressões eram reinterpretadas por mim de uma certa maneira. Era muito curioso que quando eles se aproximavam para olhar a tarefa ou coisas assim eu percebia que eles não eram como eu imaginava. A textura da pele, o contorno dos olhos e as expressões mudavam muito. Eles passavam a ter outro significado depois que se aproximavam.
Assim também hoje com meus alunos, não há como estar próximo de todos , mas sempre existem aqueles que são mais corajosos, atirados, ou que pelo passar natural do tempo vamos nos tornado mais próximos. Esses deixam de ser alunos, passam a ser amigos. Gostaria de ser assim com todos, mas não há como. Entre os doze apóstolos de Jesus Pedro, Thiago e João pareciam mais próximos. E eram apenas doze. Resta-nos, ao vê-los formados, sonhar que voarão e serão felizes.
Pode ser que se desenvolva afeto por pessoas sem a menor proximidade. Mas nada que se compare a estar a um palmo de distância. Só se conhece a verdade dos grandes pintores quando podemos esquecer suas imagens e só ver as pinceladas. Só conhecemos de fato um compositor quando nos arrogamos a tarefa de tentar executá-lo. Os planos abertos são bonitos no cinema, mas o amor é sempre um close.
M.U.C.C.
Não há situação mais clara para representar isso do que cruzar a calçada para não encontrar alguém ou para provocar o encontro. Quando era aluno, me habituava a ver meus professores à uma certa distância. Normalmente eu sentava no fundo, não por comportamento, mas por tamanho mesmo, e de lá eles tinham uma determinada proporção e suas expressões eram reinterpretadas por mim de uma certa maneira. Era muito curioso que quando eles se aproximavam para olhar a tarefa ou coisas assim eu percebia que eles não eram como eu imaginava. A textura da pele, o contorno dos olhos e as expressões mudavam muito. Eles passavam a ter outro significado depois que se aproximavam.
Assim também hoje com meus alunos, não há como estar próximo de todos , mas sempre existem aqueles que são mais corajosos, atirados, ou que pelo passar natural do tempo vamos nos tornado mais próximos. Esses deixam de ser alunos, passam a ser amigos. Gostaria de ser assim com todos, mas não há como. Entre os doze apóstolos de Jesus Pedro, Thiago e João pareciam mais próximos. E eram apenas doze. Resta-nos, ao vê-los formados, sonhar que voarão e serão felizes.
Pode ser que se desenvolva afeto por pessoas sem a menor proximidade. Mas nada que se compare a estar a um palmo de distância. Só se conhece a verdade dos grandes pintores quando podemos esquecer suas imagens e só ver as pinceladas. Só conhecemos de fato um compositor quando nos arrogamos a tarefa de tentar executá-lo. Os planos abertos são bonitos no cinema, mas o amor é sempre um close.
M.U.C.C.
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
Submundo
Este domingo acordei tarde e tive que almoçar sozinho. Fico pensando que os almoços não foram feitos para a solidão, quando o inventaram pensavam em pessoas que por já ter alcançado algum progresso civilizatório estariam cercados por uma família, grei, comunidade e fariam daquele momento algo mais do que nutrição pragmática. O almoço celebra a vida urbana, sedentária, comemora a cultura no sentido mais original que esta palavra pode ter.
A própria ideia de restaurante já indica que o que se fará naquele lugar é mais do que simplesmente nutrir-se, mas hoje as pessoas comem como se fossem carros em um posto de gasolina. Fui a uma lanchonete chamada Subway. Nada contra esta empresa (olha o medo do processo), que oferece produtos em qualidade superior aos seus concorrentes e que é sem dúvida útil às pessoas em seus agitados cotidianos. Mas o nome do recinto me fez pensar. Me parece que estamos escolhendo o caminho de baixo e não o caminho das coisas elevadas. Preferimos regredir em nossas relações sociais em nome de um suposto avanço tecno-cultural. Literalmente deixamos de usar os garfos e voltamos a comer com as mãos, enfiamos barbaramente a cara no sanduíche e nos digladiamos com a presa indefesa.
Se o consumo nos barbariza existem outras dimensões deste pântano. Aprendemos a cultuar o underground sem nos darmos conta do que isso significa. Há um apreço pela marginalidade, pela autodestruição, pelo vazio moral e pela malandragem, que rejeita o que talvez haja de mais valioso em nossos padrões sociais que é o aperfeiçoamento ético-moral. De repente ficou bonitinho posar de bad e fazer caras e bocas. Hoje o que mais ouço nas fúteis entrevistas de celebridades é a asquerosa frase: "não me arrependo de nada". E todos batem palmas! Será muito perceber que uma afirmação deste tipo ou aponta para um quadro de psicose ou para uma duplicidade moral em que se diz uma coisa e se sente outra? O mal é sempre o outro, o sistema, a PQP, mas nunca se pensa em um caminho de aperfeiçoamento próprio. Pelo contrário, orgulhosamente ostentamos nossos defeitos como medalhas, lambemos nossas feridas diante da nuvem WWW.
M.U.C.C.
segunda-feira, 17 de outubro de 2011
Sopa de letrinhas
Procuro frases minhas em uma sopa de letrinhas qualquer. Enquanto procuro, penso que talvez seja mesmo só uma sopa.
Não tive chance de falar quando ainda planejava lhe dizer algumas coisas. Foi-se com o frescor, que levou também as brumas da manhã. Veio o sol, o girassol e a noite. Ficamos eu e o retrovisor procurando por esquinas e transversais, sempre em vão é claro. Mas se pudesse o que diria? Tudo ou nada? Só mais um Chá(t) ou um café?
Sou assim, eu e espelho. Julgando futuros, matando passados, correndo presentes. Pensei em me arrepender, o que seria a melhor coisa a fazer, sempre é, mas ainda não me dei esse luxo. Pensei, e já me dei por satisfeito.
M.U.C.C.
Não tive chance de falar quando ainda planejava lhe dizer algumas coisas. Foi-se com o frescor, que levou também as brumas da manhã. Veio o sol, o girassol e a noite. Ficamos eu e o retrovisor procurando por esquinas e transversais, sempre em vão é claro. Mas se pudesse o que diria? Tudo ou nada? Só mais um Chá(t) ou um café?
Sou assim, eu e espelho. Julgando futuros, matando passados, correndo presentes. Pensei em me arrepender, o que seria a melhor coisa a fazer, sempre é, mas ainda não me dei esse luxo. Pensei, e já me dei por satisfeito.
M.U.C.C.
Olimpo
Por quem choram os deuses do olimpo?
Será que são capazes de compaixão?
Amariam eles a morte como nós amamos a vida?
Desejariam o imperfeito como nós a perfeição?
Ou seriam só deuses mesmo?
M.U.C.C.
terça-feira, 11 de outubro de 2011
A moça chamada Liberdade
Não sei se mancha, não sei se mata, não sei se é manha ou se é manhã, não sei.
Juro, não sei nem mesmo a cor. Se branco que intimida, se preto que esconde ou se vermelho...bem, se for vermelho basta.
Que gire, que seja, que voe!
Que a liberdade tenha um sorriso amplo de felicidade, um longo cabelo e longas tranças e baixe no corpo de uma atriz. E que ela viva todos os nossos papéis desgraçados e que os subverta em alegria e leveza.
E se manchar que manche e se borrar que borre e que venha a manhã e o novo dia.
M.U.C.C.
Juro, não sei nem mesmo a cor. Se branco que intimida, se preto que esconde ou se vermelho...bem, se for vermelho basta.
Que gire, que seja, que voe!
Que a liberdade tenha um sorriso amplo de felicidade, um longo cabelo e longas tranças e baixe no corpo de uma atriz. E que ela viva todos os nossos papéis desgraçados e que os subverta em alegria e leveza.
E se manchar que manche e se borrar que borre e que venha a manhã e o novo dia.
M.U.C.C.
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
penas e papel
Que meu texto seja sempre feito de angústia e estupor!
Que seja como pus que eclode da ferida,
seja a bolsa que se rompe em vida.
as classes, ordens e espécies de meu caos interior.
Que seja a língua do fogo da falta,
que seja a onda tsunâmica do vazio,
que me faça sumir em um redemoinho,
me faça trova, tambor e menino.
Que me mostre a cara da tragédia,
me leve a morar com Ciclopes e Medusas,
me deixe nú em frente ao altar,
que não me tenha dó, que não faça média.
E que nele eu não habite em paz,
que não haja quem sabe outra vida
e que nela eu não possa mandar.
Me tire as penas, o amor e o cocar.
E que eu ainda tenha vida para quando ele ficar pronto.
M.U.C.C.
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