sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

antes da orquestra começar existe um instante de silêncio.

minhas palavras secaram. estão no fim de um corredor que não tenho forças de atravessar. dizer o quê? não quero palavras. já as utilizei demais. não quero falar. não quero. tenho mais o que fazer. Há um mundo inteiro por reconstruir, há um caos reinante para destronar. Falar pra quê? Já falei. que nasça duas mãos no lugar da minha boca. Ser feito, fato e não mais fala. pra quê palavras o que quero mesmo é o barulho do grunhido que nasce e jorra. AKVEBSORCACDKFRCVLFBSLDVAOACNRSKREA!!!!!!!!!



M.U.C.C.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Fome Zero?

Quero escrever, mas não se pode escrever com fome.
Devo fazê-lo, contudo não é prudente falar da comida.
Posso escrever sobre a fome, mas não sobre ela.
E de qual fome falar?

Jornais não se obrigam nem mais ao verossímil,
os sábios tudo sabem e nada dizem
Os loucos fazem o oposto.
E de qual fome falar?

Um cachorro apanha na tela.
Uma pequena morre calada.
Todos só sabem ter um Grande Amigo.
E de qual fome falar?

Boeiros pulam, prédios caem e formam-se rios em Janeiro.
As águas de março já faz muito passam mais cedo.
Há onde não chova também.
E de qual fome falar?

Ainda existem escolas?
Ouvi falar em faculdades.
Mas os poetas, pai de todos os artistas, já morreram certamente.
Desgostosos de certo.
E de qual fome falar?

Sei de nada?
Sei de mim?
Sei que sei?
O que é que é o saber?
Não sei se sabem, mas não sabem mais a resposta.

Ah, sim! Sei. Tenho Fome!


M.U.C.C.

A distância entre as palavras

Só   Rio
Sou  Risos
SoL   Rio
Soul    Risos
SouR    Rising



M.U.C.C.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Assiduidade


Poucas sempre, mas intensas as visitas da Ternura. Vem sempre sem avisar, diz que não gosta de incomodar. São sempre muito rápidas também. Tem um outro compromisso, diz, mas duvido. Não ficou nem pro cafezinho, antes que a água fervesse já juntou suas coisas, deu uma rápida olhadela no espelho, afagou levemente o cabelo, desculpou-se culpando verdadeiramente o tempo e foi. 
Conversamos pouco é claro, mas o tema central da visita trazia nos olhos. As conversas dos olhos acontecem muito mais rapidamente. Foram eles que disseram que já não lhe restam muitos a quem visitar. Confunde-na com a Sr. Pieguisse de quem tem medo os elegantes, ou com a Dona Fraqueza a quem todos temem. A grande turba de gentes entretanto não a confundem, antes fosse pois já não a reconhecem.
Eu mesmo envergonhei-me com a notícia. De tantos fundos de poço, de tantas paredes de labirinto, de tantas escamas e tantos calos me deixei esquecê-la. Não disse isso a ela, talvez os olhos o tenham feito. Quem conhece ternura não deveria tolerar outra companhia, não devia abrir as portas de sua casa a qualquer outro visitante.
Logo veio e foi embora, restou-me dizer já pela porta que aprecio suas visitas, que não incomoda e que nada exijo a não ser assiduidade.



M.U.C.C.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Madrugada

Madrugada é nome de doce. Muito melhor que goiabada. A quem a prove com parcimônia,  mas são raros. Há nesse doce um tom amargo. Ansiedade vira Angústia. Solitude, solidão. O ressabiado passa a triste. Os sambas viram boleros. E a sede como aumenta.

O amargo vem de nós,  que não se culpe a madrugada. É o Romeo para a Julieta, é como o queijo curado pra goiabada. E como é bom uma madrugada com angústias meia-cura. Eles me fazem sofrer tão melhor.

Sem elas o doce enjoa. Só do azedo e do amargo das cascas raladas se faz boa compota. E que mais me rale. E que a casca se faça mais grossa. Para que o doce seja mais sentido. Para que venha a Madrugada.



M.U.C.C.

a noite da minha cidade

Quando o sol começa a se esconder as florestas tornam-se especialmente amedrontadoras. Os ruídos dos animais aumentam em frequência, volume e estridência. As cores se misturam. As árvores crescem. O céu fica mais distante. O chão fica incerto. Os caminhos menos evidentes. Sou um homem urbano porque morro de medo das noites nas florestas.

Gosto das placas azuis que dizem os nomes das ruas. Gosto dos postes iluminando as noites da minha cidade. Gosto de ouvir os barulhos de brigas de famílias. Gosto menos das músicas que saem de dentro dos carros. Me lembro da sensação confortadora de ouvir longínquos os motores de ônibus alongando marchas para depois trocá-las. É tão bonita a cor da sala quando só resta a luz do sinaleiro. Ora verde, amarelo e já vermelho. Ou a cor da televisão, muda e sem sinal, a projetar formigas na parede.

Só assim sou forte o suficiente para aceitar que um denso silêncio me oprima a alma e traga o sono. O silêncio também traz sonhos. Por vezes depois do sono e então é tarde para lembrar-me deles na manhã seguinte. Mas muitas vezes os sonhos chegam antes do sono. Desses sonhos sou escravo por dias. Tomam conta de mim por tempo demais. Tomam de mim a maior de todas as riquezas, a normalidade.


Amo a noite de minha cidade. Amo meus sonhos. Amo ainda mais os frustrados, interrompidos, não realizados e não realizáveis. São como motosserras que destroem a mata selvagem que vive dentro de mim. A pior de todas as florestas escuras é aquela da qual nunca me apartei. Só meus sonhos, e o escudo destas linhas desbravam-na. Quero sonhar nesta noite com a urbanização da minha alma.


M.U.C.C.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Eu, um guardador de carros, um velho, uma criança e Johann Sebastian Bach.

Existe um homem que guarda carros todas as noites perto da casa onde moro. Hoje quando me aproximava dele vi que tinha companhia. Era um senhor já muito velho sentado na cadeira em que o guardador normalmente está. Nunca tinha visto um velho tão velho chorando daquele jeito. Aquele choro só tinha visto entre adolescentes. Chorava com desespero e vazio, já não tinha forças para falar, quase. O velho queria se matar. Falava do filho, estava confuso, tentava chorar, balançava a cabeça, tornava a chorar. Tentei consolá-lo, eu e o guardador, sentia-me como um canastrão soltando frases que eu mesmo não podia entender e acreditar. Mais calmo se foi, talvez quisesse mesmo desabafar. Fui também.
Cheguei na academia. Halteres subiram e desceram, a esteira correu, meu corpo doeu, suou e cansou. Tive tempo para me fazer perguntas. Não as quero responder como quem responde a um empregador em uma entrevista, quero as perguntas do meu filho. Quero realmente ser capaz de fazer perguntas sem imaginar as respostas. Qual o sentido da vida? Pensei em fazer deste um texto sobre o sentido da vida, seria a minha resposta ao velho, mas não sou capaz nem de ao menos esboçar resposta. Não agora. Deixe-me com a pergunta. Não me venha com frases prontas, peça ao Hamlet para falar mais baixo porque está me atrapalhando. Não responda está pergunta como quem está diante de um quiz.
Não há sentido, disse um amigo de Zaratustra, ignorando que ele era solitário e não tinha amigos. Cada um deve construir a sua ponte sobre o rio da vida, não há sentido e assim devemos construir um sentido próprio para ela. Parece-me porém, que o rio é por demais largo para nossa vã engenharia. Teria Zaratustra se esquecido de anunciar sua própria morte? Ainda que morte lenta e degenerativa está era a morte que o velho anunciava. Era dele e nossa.
Vim me consolar com Bach. Horas antes tinha perdido bom tempo ouvindo-o ao computador. Pude me consolar enternecido pelas cordas de seus cravos, violinos e violas. Não posso me esconder de mim ouvindo Bach. Nunca mais fui o mesmo depois de ouvir a famosa ária número 3. Bach me faz amar a vida. Amar não as fantasias de conquista e sucesso que nos levam a chorar o choro do velho, mas amar estar vivo. Bach me faz pensar que para além de todo relativismo estético há beleza. Há sentido.
Me consolei também no sorriso do meu filho. Cada vez que o vejo sorrir penso como sou incapaz de sorrir como ele. Desejo que ele seja muito feliz enquanto pode. Vira o tempo em que sorrir será quase um esforço. De todas as muitas perguntas que me faz, jamais me perguntou sobre o sentido da vida. Penso que ele só pergunta do que não lhe parece evidente. Quem se faz essas perguntas, sinto informar, já começou a morrer. Talvez por isso é que a eternidade é para os que são como crianças.

M.U.C.C.