terça-feira, 20 de março de 2012

Vampiros, orquídeas e um tênis surrado.

As orquídeas são tão belas quanto as catedrais góticas da Europa. Talvez mais. Se dedicar a elas é no entanto mais barato,  podendo até não custar nada já que podem ser encontradas na natureza. Jogar betes na rua de casa pode ser mais divertido que um passeio na disneylândia. Os grandes chefs da culinária mundial queimam pestanas para cozinhar como nossas avós. Capucinos, chococinos, moccas, expressos (longo?) (curto?)...umm..tem no coador de pano? Sabe, com caneca esmaltada descascando? Garçom, viu...meu primo piatto será arroz e feijão e vê se dá pra passar um bife numa panela de ferro bem quente!? não, não, mas nada, não....vou ficar só nisso mesmo.

Algo parece querer se desprender de nós na medida que os anos passam e a vida fica mais séria. Entre o homem que saca de um cartão magnético para abrir a garagem do escritório e o rapaz de tênis surrado que subia ladeiras sem se dar conta do cansaço algo se perdeu. Algo da essência das coisas, da densidade da vida.     Aquilo que pode mudar a vida de alguém, aquilo que pode fazer chorar, que pode fazer valer todo o mais, pode ser menos do que se espera. Os melhores livros provavelmente estão nos sebos.

Quando pequeno sonhava constantemente com um vampiro que morava em um castelo de cartas. Ele era amarelo, bem vestido e faziam flexões de braço enquanto dava ordens. Aterrorizava toda a cidade, meus avós e eu mesmo. Cresci e parei de sonhar. Hoje sei que a cidade aterrorizada sou eu, meus avós sou eu e eu, pasmem, também sou eu. O Vampiro é uma mascara debaixo da qual já passaram vários rostos, o meu também. Um dos rostos escondidos é o do medo de ser pequeno. O temor de ser pouco, de não estar a altura das expectativas, minhas principalmente.

Para este vampiro quero hoje dizer, vamos tomar um cafezinho com bolo de fubá?


M.U.C.C.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

No oráculo de Delfos



Meu filho me chacoalha pela gola de minha camiseta, escrevo ao computador, ele insiste.

 "Pai, olha pra mim"! "Olha aqui, pai"!

E assim vai reformulando a sentença ora invertendo sua ordem, ora mudando a intonação, ora as palavras, ao infinito.

Me rendo, deixo o que faço e volto os olhos para o menino.

"Quem é você"? Pergunta.

Silêncio.

Suspiro.

Desisto.

Ele venceu o argumento...



M.U.C.C.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Saudades



A saudade está cada vez mais rica. Não para de arrematar propriedades nos leilões dos nossos tempos. Por esses dias, tornou-se senhora de um belo teatro londrinense. O negócio todo foi feito em sigilo de tal modo que quando nos demos conta a transação estava concluída. A imprensa não noticiou, mas a compra do teatro selou uma série de investimentos já feitos pela saudade na região. Depois de comprar as calçadas de petit pave, o bosque, fachadas de lojas, bancas e quiosques, a investidora passou a ter sonhos mais ambiciosos. E promete não parar por ai, há quem diga que seu próximo desejo é a cabela de outro calçadão da cidade.


Há quem diga que o grande mal do mundo seja uma tal rua da parede, querem ocupá-la. Eu penso que o terrível gênio desse século seja a saudade, sua ganância devoradora é quase sem limites. A velocidade de sua ação precisa de freio, talvez pudéssemos pensar em uma intervenção estatal contra ela. Sugiro que se crie uma lei especial anti-truste da saudade. Ela não atua só no setor imobiliário aliás, esta é apenas sua face mais visível. Seu império é também feito de canções, lembranças e sentimentos. Fontes seguras dizem ser essas as bases de seu reinado.


Para vos ser sincero devo confessar que a condição de penúria em que minha existência se encontra me faz recorrer ao seu penhor constantemente. Boa parte de minhas lembranças já estão no prego, deixei com a saudade por não ter mais crédito na praça que me permitisse recorrer a outros financistas. Para onde foi a igreja de minha infância? E o clube? E o recreio? As ruas de minhas lembranças já tem todas várias placas de vende-se e a saudade parece ser o único investidor interessado. Os metros quadrados mais caros de minhas memórias já pertencem ao império da saudade.

M.U.C.C.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

antes da orquestra começar existe um instante de silêncio.

minhas palavras secaram. estão no fim de um corredor que não tenho forças de atravessar. dizer o quê? não quero palavras. já as utilizei demais. não quero falar. não quero. tenho mais o que fazer. Há um mundo inteiro por reconstruir, há um caos reinante para destronar. Falar pra quê? Já falei. que nasça duas mãos no lugar da minha boca. Ser feito, fato e não mais fala. pra quê palavras o que quero mesmo é o barulho do grunhido que nasce e jorra. AKVEBSORCACDKFRCVLFBSLDVAOACNRSKREA!!!!!!!!!



M.U.C.C.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Fome Zero?

Quero escrever, mas não se pode escrever com fome.
Devo fazê-lo, contudo não é prudente falar da comida.
Posso escrever sobre a fome, mas não sobre ela.
E de qual fome falar?

Jornais não se obrigam nem mais ao verossímil,
os sábios tudo sabem e nada dizem
Os loucos fazem o oposto.
E de qual fome falar?

Um cachorro apanha na tela.
Uma pequena morre calada.
Todos só sabem ter um Grande Amigo.
E de qual fome falar?

Boeiros pulam, prédios caem e formam-se rios em Janeiro.
As águas de março já faz muito passam mais cedo.
Há onde não chova também.
E de qual fome falar?

Ainda existem escolas?
Ouvi falar em faculdades.
Mas os poetas, pai de todos os artistas, já morreram certamente.
Desgostosos de certo.
E de qual fome falar?

Sei de nada?
Sei de mim?
Sei que sei?
O que é que é o saber?
Não sei se sabem, mas não sabem mais a resposta.

Ah, sim! Sei. Tenho Fome!


M.U.C.C.

A distância entre as palavras

Só   Rio
Sou  Risos
SoL   Rio
Soul    Risos
SouR    Rising



M.U.C.C.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Assiduidade


Poucas sempre, mas intensas as visitas da Ternura. Vem sempre sem avisar, diz que não gosta de incomodar. São sempre muito rápidas também. Tem um outro compromisso, diz, mas duvido. Não ficou nem pro cafezinho, antes que a água fervesse já juntou suas coisas, deu uma rápida olhadela no espelho, afagou levemente o cabelo, desculpou-se culpando verdadeiramente o tempo e foi. 
Conversamos pouco é claro, mas o tema central da visita trazia nos olhos. As conversas dos olhos acontecem muito mais rapidamente. Foram eles que disseram que já não lhe restam muitos a quem visitar. Confunde-na com a Sr. Pieguisse de quem tem medo os elegantes, ou com a Dona Fraqueza a quem todos temem. A grande turba de gentes entretanto não a confundem, antes fosse pois já não a reconhecem.
Eu mesmo envergonhei-me com a notícia. De tantos fundos de poço, de tantas paredes de labirinto, de tantas escamas e tantos calos me deixei esquecê-la. Não disse isso a ela, talvez os olhos o tenham feito. Quem conhece ternura não deveria tolerar outra companhia, não devia abrir as portas de sua casa a qualquer outro visitante.
Logo veio e foi embora, restou-me dizer já pela porta que aprecio suas visitas, que não incomoda e que nada exijo a não ser assiduidade.



M.U.C.C.