quarta-feira, 30 de março de 2011

Dos Milagres

Há, houve ou haverá um momento em que aquele redundante perfume de sempre volta, voltou ou voltará a perfumar. E mesmo que ele nunca tenha deixado de perfumar, nem se quer por um instante, mesmo assim, só então voltará a ser perfume. Mesmo ao percorrer aquele percurso de sempre é possível, com um pouco de sorte, perder-se. É possível vivê-lo como se o estreasse. Somos seres magicamente lindos, inteligentes e complexos, mas vivemos constantemente exilados desta magia. Vivemos constantemente sob o embotamento das previsibilidades produzidas pela mente, somos cativos de causas e efeitos que nós mesmos produzimos e que nos parecem sempre funcionar. A vida assim tem o tamanho de nós mesmos e o fim desta série lógica é o tédio, o enfado e o nihil. Mas há, houve ou haverá o instante mágico em que nos percebemos de fato. Somos novamente capazes de cheirar o que não parecia ter cheiro, tocar o que não tinha textura, amar. Não sei explicar exatamente este fenômeno, talvez não seja nem o caso, de tão sutil e delicado talvez só seja captável pela intuição. Uma frase inúmeras vezes lida que se ouve como inédita, os olhos que passam de repente a ter um olhar, o gole d'água. Não sei, mas sempre vivi momentos assim, desde muito pequeno. Vez ou outra sentia o mundo girarando em uma rotação diferente, as palavras que dizia me soavam externas, exóticas e pouco familiares, eram momentos de autoestranhamento. Nunca consegui explicar, não sei se é um defeito, doença, alteração hormonal. Mas costumo chamar de milagre.

M.U.C.C.

domingo, 27 de março de 2011

elela

Ela quer e ele parece que também. Ele ainda não fez mais do que se entregar ao trabalho e a dureza da vida, ainda não teve a oportunidade de vivê-la levando os sonhos tão à sério como ela gostaria. Ela vive de levar os sonhos à serio, e lhe parece estranho ter de viver assim com os pés tão fincados à realidade. Ele veste-se demais, ela diz, perfuma-se de menos, ele não interessa-se pelo estar vestido e pelo tipo do perfume. Ele quer é despi-la e sorver o cheiro, de resto...Ela não sabe como poderá compartilhá-lo com os olhares dos outros, não sabe como fazê-lo parte de seu mundo de sempre muitos sonhos e dos dilemas gerados por suas muitas interpretações.
Elela são assim o arquétipo infinitamente repetido do homem e da mulher. São como a bailarina apaixonada pelo soldadinho de chumbo, a princesa que se desencastela por amor ao plebeu, a dama e o vagabundo comendo spaguetti ao luar. Não sei se nos apaixonamos pelo diferente, não sei se os opostos se atraem. Não sei se a dama se separou do vagabundo quando percebeu que ele era vagabundo mesmo, não sei se a bailarinha ficou viúva quando o soldadinho foi para a guerra. Penso que há uma cumplicidade necessária aos relacionamentos que se alimenta de muitos pontos comuns, existem momentos em que é preciso jogar no mesmo time e levantar a mesma bandeira. Mas eles sorriem tão lindamente no retrato.

M.U.C.C.

terça-feira, 22 de março de 2011

SIlêncios

Estranha-me ter de chamar por silêncio tão grande variedade de coisas.  O Cristo permaneceu em silêncio. Silêncio suficiente e pedagógico. Não rebateu acusações, não se deixou afetar. Quando falou disse apenas: Tú o dizes. Não era preciso dizer o que o universo mesmo dizia. Neste caso cabe o dito, quem se justifica se condena, evidentemente vivido ao contrário. O silêncio também se presta a eloquência.
Há os que só param de falar quando se cansam. Em geral, quando isso acontece já é tarde. Já se falou mais do que o cabível, mais do que a prudência aconselha. Perdem de viver o que de melhor o silêncio tem  a oferecer. Quem silencia permite à mente respirar, permite-se sorver melhor do presente. E ninguém pode se desculpar dizendo que não se cala por ignorância, porque antes de tudo o silêncio é uma linguagem do corpo.  O sono certamente é sua manifestação mais exemplar. É preciso calar-se completamente para dormir, calar as vozes mais inaudíveis, calar os argumentos da mente e os debates da consciência. E só neste estado de silêncio nascem os sonhos, poesia que intercala os longos capítulos em prosa do dia-a-dia.
Hoje passei o dia falando, dever da profissão e de cordialidade com os amigos, mas no fundo permaneci em silêncio. O silêncio da alma. Aquela voz que sonha, projeta, ama, pulsa, se revolta, se insurge, os vocativos que proferimos em nossa própria direção permaneceram todos calados. Greve geral dos muitos eus que me compõem. Eles estão cansados dos meus mesmos erros, estão cansados de ter de pagar as faturas dos compromissos que assumo. E talvez por isso, e até por ressentimento, passaram o dia quietos. Não me deram nem se quer satisfações. Acusando o golpe e consentindo a culpa, me calei. Também.

M.U.C.C.

quinta-feira, 17 de março de 2011

A ressaca de Bukowski

Eu não me considero uma pessoa conservadora, nem no sentido ideológico nem no sentido comportamental. Tive sempre em minha, ainda curta e medíocre, biografia uma pitada de transgressão, inconformismo e um apreço pelas marginalidades estéticas. Se não o fora, não teria cursado História, para o latente escândalo dos que me cercavam. Teria feito direito, ADM, ou outras óbvias opções que me assediavam. Exatamente por ter esse gosto por deixar o cabelo descabelar, a roupa furar, a barba crescer (a barriga cresceu movida por outras forças) estou cada vez mais seduzido pelos conservadores. Não os compro totalmente, não me sinto um deles, não consigo aliás me sentir parte de nenhum bloco ideológico monolítico. Seria como virar uma estátua. Mas eles é que passaram a representar a rebeldia dentro do campo cultural brasileiro. A cultura brasileira abraçou uma sofisticação de verniz, um apreço pelo popular (mantido à distância evidentemente), uma vanguardice comportada fazendo tudo soar mais falso que sorriso de Miss. O futuro-natimorto-tropipilantra blog da Bethânia é, neste sentido, paradigmático.
Exatamente por esta náusea que se turba em meus ventres cotidianamente, resolvi falar do Paulo Briguet. Gosto do briguet porque além de escrever muito bem, tem a coragem de ser um fora-de-moda e dizer coisas que soarão cafona nos meios em que transita. Ele é um outsider do eixo Marx-foucault-GLS-canabis-etc....e isso já é considerado delito nos meios culturais brasileiros atuais. O que traz uma nódoa transgressora aos seus textos. E a arte deve ser sempre transgressora! Não penso exagerar sinceramente. Discordo de Briguet na afirmação de que não deva haver verba pública para a cultura. (leia aqui o artigo em questão) As favelas precisam de bibliotecas e projetos que as tornem realmente úteis, precisam de espaços para teatro, cinema e rádio. Não só as favelas, mas entenda a figura de linguagem que proponho. Mas também acho que espetáculo não deve ter verba pública. Artistas do mundo inteiro, se virem para tornar-se viáveis. Se há capital valorizado nestes dias é o da espetacularidade. Sempre houve arte de vanguarda, marginal ....e o escambau, sem que tivesse que passar o chapéu diante da classe política. Aliás, quem é marginal mesmo, vanguarda mesmo, muderninho mesmo, deveria ter asco de verba pública. Deveriam se sentir comprados pelas forças propagandísticas do estado. Quem diria que um autor católico pudesse soar provocador e Charles Bokowski soar obediente!

M.U.C.C.

Felicidade

Sempre seguindo...(com bom twitteiro)...você , minha felicidade. Você é sempre tão tímida, tão privada, tão clandestina que me dá um enorme trabalho ter de correr ao teu encalço. Farejo-te por todos os longos dias de nossa distância. Analiso pegadas para ver se seriam realmente tuas, há sempre o perigo de falsas alegrias. Sei que nossa distância é quase sempre minha culpa, sei que não sei me fazer leve, não sei me alegrar com o que sou, mas sei também que andas ocupada a fazer rir muitas crianças de todas as idades, e por isso desculpo a sua ausência. Mas sem querer me alongar, quero apenas dizer que estou te escrevendo para te dizer que quero muito te encontrar de novo, quero muito te encontrar mais. Tenho sempre muita saudade. Quero passar um fim de semana completo em tua companhia, quem sabe até, sem querer lhe tomar demasiadamente seu exíguo tempo, poder desfrutar de sua companhia por toda uma temporada. Mas caso contrário, te entenderei. Continuarei te perseguindo, não serei daqueles que se tornam ressentidos pela sua ausência. E se na pior das hipóteses nunca mais te encontrar...bem, então te encontro na saída.

M.U.C.C.

terça-feira, 15 de março de 2011

sapatos de dorothy





Vermelhas carnes de vermelho pulsar,

de tão vermelhas vermelham a vida,

vermelham bochechas anaeróbias de amar.



Vermelho como os sapatos de Dorothy.



Vi vermelho nos olhos,

crianças sem colos,

não era show, era choro.



Choro de vermelha goela, sofridas princesas sem dote.



De vermelho se pintou o amor,

mas quase sempre de vermelho a rua também esta pintada,

de um vermelho que não vale risada,

de um vermelho-quase-preto e vingador.



Se há brancos, amarelos, pretos ou N.D.A. por dentro todos somos vermelhos.



M.U.C.C.

domingo, 13 de março de 2011

Um albatroz chamado livro

Abrem-se suas asas e começa a jornada (soou como Fiori Gigliotti). Seu bate-asas constante, o renovar das próximas folhas, cria-se um novo mundo a cada movimento. De mundo em mundo segue o vôo, em silêncio. Lá no alto pode-se ter o prazer do nada ouvir, a não ser as vozes que brotam do interior da nobre ave e como são muitas as vozes e muito distintos seus ruídos não há tempo de se sentir só, nem doente, nem ao menos triste. Suas garras nos prendem tão firmes que não há como temer o elevar-se do chão, seu vôo tem o frescor do estar em férias, suas manobras são confortáveis e hospitaleiras como um bangalô à beira-mar. Às  vezes à hora das obrigações do dia, às vezes o sono, que nasce dessas mesmas obrigações, ou ainda uma ruidosa criança nos faz cair de lá do alto. E como dói. Ter de botar os pés na vida novamente, chamar as coisas pelos seus nomes mais óbvios, apanhar um camisa amarrotada no chão, verter suor e olhar o relógio. A ave pousa em um galho e nos segue olhando pelo tempo que precisarmos. Até que possamos lhe abrir as asas novamente para voar.

M.U.C.C.