segunda-feira, 22 de novembro de 2010

chuva

Minha vó gosta muito de dias de chuva. Ao notar os primeiros indícios, uma nuvem que escurece, um ruído trovejante, ela abre um belo sorriso e recupera sensivelmente seu humor. Desde que percebi isto passei a observar como ela é uma pessoa interessada nos movimentos da natureza. É como se tentasse ler as pistas dadas pelo céu, pelos pássaros, pelo vento, tentando decifrar o criptograma dado matinalmente pela natureza. Ela nasceu em um Brasil ainda rural, onde as condições naturais eram mais evidentemente importantes para as pessoas. Naquele Brasil caipira chover era como ver o saldo da conta-corrente no azul, sinal de que a provisão estava em vias de se consumar. Chover era como pagar uma nota promissória, da qual nem sempre se tem fundos e o avalista é um ser intempestivo. Por isso, eu não acho inútil conversar sobre o tempo. Sabe aquele papo de taxista, de elevador, de salão de beleza, meninas, trata-se de um tema relevante que deve ser discutido e exercitado.
Eu também gosto de chuva, mas não como minha vó. Eu gosto de chuva por causa do cheiro, da temperatura, da mudança das cores, da umidade. É uma afinidade sensorial e estética. Não sou uma pessoa que gosta de refrões, prefiro as estrofes. Um dia de sol é tão obviamente mais belo, é tão louro, tão exuberante que eu acabo alimentando um apreço pela chuva. Parece-me como uma preparação, ninguém merece um sol no verão sem tomar umas chuvas por ai. É como torcer para o time mais fraco, eu não sei explicar, mas se me pego assistindo uma partida de qualquer coisa, quando dou por mim estou torcendo por aqueles que me parecem inferiores ou que estão em desvantagem no marcador. Eu gosto de chuva também porque me sinto um cara chuvoso, eu jamais seria aquele entardecer bronze em Copacabana, ou um dia de sol à pino em Porto de Galinhas. Eu sou um dia chuvoso e com alguns trovões de vez em quando. Quando vejo as gotas de chuva formarem um espécie de névoa ou quando forma-se uma densa neblina, sinto-me em casa. Pode ser calma, leve, rápida, intempestiva, persistente elas sempre me parecem familiares.

Droga! Parou de chover!

M.U.C.C.

3 comentários:

Miss Cookie disse...

Identificação incrível com o texto! Também gosto de chuva, também não sou de refrões (não que eu considere isso uma vantagem o tempo todo).
Sempre bom ver sobre alguém um pouquinho além do que os olhos permitem.
Abraço, "profe"!
Patrícia Alvino. (medmagno)

Miss Cookie disse...

Identificação incrível com o texto! Também gosto de chuva, também não sou de refrões (não que eu considere isso uma vantagem o tempo todo).
Sempre bom ver sobre alguém um pouquinho além do que os olhos permitem.
Abraço, "profe"!
Patrícia Alvino. (medmagno)

Andrey disse...

Aaa as densas névoas, o frio, a umidade, o céu que vira um mar cinza que carrega algo tão pesado e difícil de decifrar, algo entre suas nuvens me desperta uma curiosidade, um mistério paira no ar, aaa... saudades do inverno...
Falar sobre o clima me deixa nostalgico hehe

Andrey =)