Falaram-me de Requiem para um sonho, acho que foi o Valdir ou Daniel, gostei ainda mais. Que montagem brilhante, o enredo era tão bom quanto o de Pi, talvez menos nebuloso. Percebi desde então que o nome de Darren Aronofsky deveria ser procurado pelas prateleiras das locadoras de filmes. Anos depois o encontrei novamente em A fonte da Vida (the fontain), seu grande fracasso até hoje. Atores famosos, um filme carríssimo e uma história que não teve o menor pudor de mergulhar nas angústias existenciais mais universais. Foi o filme que mais gostei, me emocionei muito e acho que não mereceu o fracasso. Ou talvez o fracasso tenha sido sua melhor crítica. Veio o lutador no ano passado, muito diferente por ser um filme realista, sem o expressionismo tão característico de seus filmes até então. O filme é ótimo também, permanece a grande capacidade de Aronofsky levar seus atores para além de seus limites. Mike Rourke brilha.
Ontem assisti o tão comentado Cisne Negro. O primeiro filme de Aronofsky que pude assistir no cinema, gostaria de saber como teria sido assistir os demais. O filme me parece reunir suas qualidades, porém sendo usadas com maior parcimônia. Prefiro o exagero, mas entendo o recato. A música de Tchaicovsky deveria estar concorrendo ao oscar de melhor atriz rivalizando com a senhorita Portman, sem dúvida é o personagem principal da trama. Foi usada e potencializada em suas nuances mais dramáticas, os trechos mais leves aparecem em relance. O filme, aliás, não se deixa levar por lirismo em momento algum, o cisne negro é o que interessa e não o branco. Aronofsky nos tortura sadicamente por quase todo o filme, somos nós como as bailarinas levados à exaustão. É isso o que gosto em Aronofsky, não a tortura, mas o fato de que não mima o espectador, não nos traz nada à boca temos que chegar por nós mesmos ao fim do filme.

Gostei sobretudo de sua leitura sobre o Balé. O grande vilão da História, diga-se de passagem, e que sai definitivamente vencedor. De todas as formas de arte sempre achei a dança a mais violenta, a que mais se deixou levar pelo desvairado sonho de perfeição. Não há idéia mais destrutiva que a perfeição, acho que isso todos já aprenderam, espero. O corpo é o alvo da disciplina no balé, diferente de um escritor que doma suas palavras, de um cantor que põe arreio em seus ruídos, ou de um ator que doutrina seus sentimentos e comportamentos, o bailarinho quer chegar ao monte olimpo com seus tendões e músculos. Como um peão de rodeio que é o homem e o touro ao mesmo tempo. Nathalie Portman soube generosamente encarnar este estereótipo. Está esquálida, infantil, quase feia. Sofremos com seus dedos, unhas, e muitas outras coisas por mais de uma hora. A menina que vira cisne é, penso, uma ótima metáfora da bailarina que vai contra sua própria humanidade.
A dança é uma espécie de martírio. Não a estou condenando, cada um deve saber como chegar a transcendência. O filme não é lindo, mas é ótimo justamente por isso. Aronofsky fez balé com o cinema ou fez cinema com o balé.
M.U.C.C.
3 comentários:
Ao assistir o filme meu envolvimento com o transcorrer da história me deixou com um embrulho no estômago do início ao fim. Você soube traduzir exatamente o que se sente e também as qualidades dessa perturbação que o filme imprime. Parabéns!
obrigado jéssica! feliz por vê-la por aqui! felicidades!
Eh... é como eu sempre ouço dizer (e também digo e sinto na pele.. hehe)... "Toda bailarina é masoquista." aushaush - e realmente, me senti envolvida pelo filme... várias vezes, me senti como se fosse EU quem estava vivendo aquilo.. OO'
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